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Teatrão sem pretensão
Por Paulo Polzonoff Jr.
Sem querer ser mais do que são, atores de novo espetáculo de João luís Fiani conquistam o público com a sinceridade de seu humor.
O segredo de qualquer obra de arte está na pretensão. Não importa se literatura, cinema, teatro ou pintura, se não há uma relação de equivalência entre a proposta do criador e o produto final, temos diante de nós um indubitável fracasso. E neste quesito, o Festival de Teatro de Curitiba tem se revelado, para aqueles que tem capacidade de compreender, um grande mestre. Nos palcos de todos os espaços, a pretensão que não encontra eco no produto final, ou seja, o espetáculo, é a regra. Salvam-se uma peça aqui, outra ali. Trabalhos estes em que a honestidade intelectual se sobressai. E quando se fala em honestidade intelectual, é bom que se realce, não se está falando de erudição, cultura e nem tampouco de sonhos de Panteão. E sim de um despojamento com relação à arte que é própria dos homens, artistas, de bem.
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Cena da peça Eu Quero Sexo: menos teoria e mais ação.
Maicon Santini, Ade Zanardini e Carol Mascarenhas |
O segredo de qualquer obra de arte está na pretensão. Não importa se literatura, cinema, teatro ou pintura, se não há uma relação de equivalência entre a proposta do criador e o produto final, temos diante de nós um indubitável fracasso. E neste quesito, o Festival de Teatro de Curitiba tem se revelado, para aqueles que tem capacidade de compreender, um grande mestre. Nos palcos de todos os espaços, a pretensão que não encontra eco no produto final, ou seja, o espetáculo, é a regra. Salvam-se uma peça aqui, outra ali. Trabalhos estes em que a honestidade intelectual se sobressai. E quando se fala em honestidade intelectual, é bom que se realce, não se está falando de erudição, cultura e nem tampouco de sonhos de Panteão. E sim de um despojamento com relação à arte que é própria dos homens, artistas, de bem.
Sucessivas vezes eu tenho falado de João Luis Fiani, o mais profícuo dos nossos dramaturgos. E tenho falado bem. Sei que a maioria da crítica especializada, se não a sua totalidade, estranha este apego a um teatro feito de muitas risadas e, crêem eles, cérebro de menos. Convém agora, por ocasião da peça Eu Quero Sexo Parte 2, um esclarecimento sobre os parâmetros que norteiam um juízo que muitos têm por torto. Afinal, como falar mal de um espetáculo alternativo como Micro-Revolução de um Ser Gritante (apesar de não ter escrito a crítica, afirmo aqui que achei um embuste o solo da discípula de Denise Stoklos) e ao mesmo tempo falar bem de uma comédia para lá de pastelão, encenada por atores adolescentes quase todos eles? Espero fazer-me entendido nesta explicação nada simples.
Acontece que o que mais tenho visto desde que fui ao teatro pela primeira vez é gente achando que pode ser genial. Um momento e tanto, este. A pessoa, aspirante a diretor, dramaturgo ou ator, em dado momento tem uma idéia. Uma só. E acha que ela pode ser definitiva e necessária para uma compreensão maior do mundo. Então resolve encenar um espetáculo como, digamos, A Hora em que Não Sabíamos Nada uns dos Outros. E cito esta peça aqui apenas porque a tenho por representativa de uma pretensão que não faz jus ao produto final.
No espetáculo já comentado, há pesquisa de linguagem e há, dizem, um trabalho exaustivo de montagem dos personagens. Há um discurso, uma necessidade de ser imortal, de ser canônico, de fazer história ou figurar num dicionário de teatro qualquer. Os atores todos pensam se tratar de Lawrences Oliviers tupiniquins. O diretor nada mais é do que um Shakespeare tropical. E o dramaturgo não é menos que Tchecov. Eis o que acham e o que vêem, com o olhar vaidoso que lhes é característico. A pretensão, é preciso que se diga, sempre anda de mãos dadas com a vaidade.
O mesmo não se vê numa montagem de Fiani. O tão atacado Fiani. Curitiba. Fico pensando na comunidade teatral curitibana que despreza Fiani, seja pelas filas imensas meia hora antes do espetáculo, seja pela risada farta, seja pelos atores que no decorrer da peça parecem estar se divertindo mais até que a platéia. Fiani tem a pretensão maior, que deveria ser resgatada por todos, absolutamente todos os que incham a cidade com suas credenciais de atores, diretores, produtores e autores: a de divertir primeiramente e, se der, mas só se der, fazer pensar. E sobretudo saber-se infinitamente incapaz de transpor para o palco, nos dias de hoje, toda a genialidade dos que o antecederam numa época em que o teatro tinha a força de uma catarse, papel que hoje cabe melhor no cinema e até mesmo na televisão.
Os atores de Fiani são canastrões, diz alguém. Discordo. Canastrão é aquele que tenta ser Marlon Brando e só consegue ser Tarcísio Meira e aquela que tenta ser Fernanda Montenegro e só consegue ser Sandra Bullock. Estes sim merecem do crítico a reprovação e o conselho cheio de compaixão para que revejam tudo o que almejam nos palcos ou telas. Os atores de Fiani, cuja média de idade imagino não ser maior do que 18 anos, não querem ser Al Paccinos nem Gretas Garbos; querem, por outra, ser apenas um meio de fazer o texto do autor fluir com alguma facilidade, um corpo para ser admirado, uma careta da qual se ri por uma hora. E nisso são bons como o quê. Fico imaginado cada um dos atores conduzidos por Fiani nas mãos de outro diretor. Tais atores, com o mesmo talento dos estudantes da UNiRio que montaram aquela peça Explicito, por exemplo, tentariam transpor para o palco textos grandiosos demais para seus talentos de menos, tentariam posar de algo mais do que atores, tentariam posar de intelectuais.
A comparação entre Eu Quero Sexo Parte 2 e Explícito deveria ser acentuada. Porque a primeira, despretensiosa, despojada, pastelão e eficiente, cumpre sua proposta de divertir o público por cerca de uma hora, ainda que sob um forte calor; a segunda, pretensiosa, afetada, tão pastelão quanto e nada eficiente, não chega nem perto de cumprir sua proposta torta que é a de divertir com algum choque e cultura. A primeira, ainda, tem no elenco atores que não andam com o salto alto da fama efêmera, que não babam um Shakespeare que talvez não compreendam, que não têm teorias macro-sociais para o ser em si enquanto coisa ontologicamente falando, é claro; a segunda, por sua vez, tem no elenco estudantes de uma faculdade que lhes ensina a fazer comédia com teorias, que os faz pensar que só é ator aquele que souber ao menos dois monólogos do bardo inglês de cor.
Fiani é um artista?, me perguntam. E eu rebato a pergunta perguntando quem, quem neste Festival de Teatro de Curitiba merece o título de artista. Quem apresentou algo verdadeiramente tocante, inovador, lírico? Dizem que o pessoal da peça Interiores e eu quero acreditar, ainda que esteja desconfiado. Os atores peladões de A Hora...? De jeito nenhum. Seria a artista Silvana Abreu, que em alguns minutos consegue destruir plenamente a literatura de Clarice Lispector? Ou ainda a atriz que, talvez possuída por Dionísio, acaba por cuspir na cara de um incauto velhinho? Fiani e sua trupe não são menos artistas do que os exemplos citados apenas por preferirem o estereótipo do homossexual efeminado e fútil à discussão atropo-psicológica do homossexualismo enquanto opção sexual empírica no discurso globalizado da sociedade de massa ou não. Ousaria dizer que são até mais artistas, porque fazem o que fazem e fazem com propriedade mesmo sabendo que no dia seguinte os intelectualóides que infestam os cafés da cidade deles estarão falando com um descaso ingrato diante das gargalhadas que deram enquanto platéia e não intelequituais (sic).
Eu Quero Sexo Parte 2 não virará tese de mestrado. Nem o historiador da arte jamais a citará como representativa de uma época. Não ganhará um Gralha Azul e não será vista pelo crítico cheio de citações de almanaque para paulistano ver. Terá, contudo, durante sua temporada, preenchido a hora de milhares de espectadores com uma alegria tão genuína quanto efêmera. Terá tornado o teatro uma atividade lúdica, à qual o espectador poderá ir sem medo de ser humilhado. Terá realizado a fantasia do aplauso em atores que talvez não brilhem para multidões maiores que a lotação do Teatro Lala Schneider. Terá, por fim, resgatado uma essência perdida da dramaturgia, que é o descompromisso com o real, o desdém para o discurso falsamente inteligente, a desprezo pela linguagem supostamente inovadora que só consegue ser patética.
Paulo Polzonoff Jr. |